O Combate cotidiano em defesa da Universidade Pública
Como diria Mário Lago, vivemos num "tempo de não lua". As Universidades Públicas Brasileiras já atravessam há muito esse tempo que se tornou eterno. Mas é por conta daqueles que acreditam que o Tempo de lua e de tirar rosa no pé um dia chegará, que estes centros formadores ainda se mantém de pé.
Esse é o caso da Universidade Federal de Pernambuco. A recente notícia que tive, de que será instalado um Inquérito no Departamento de Clínica Médica da Casa que me graduei, me alegrou bastante e me motivou a escrever um pouco sobre a história e o cenário político. É um texto parcial e escrito com paixão por uma pessoa que se alegra em ver que o tempo dedicado à luta por um mundo melhor nunca é desperdiçado.
A História
Com o passar dos anos que pesem sobre os ombros das universidades federais e com a precarização crescente fomentada pelos termos de ajuste fiscal que o Brasil padece desde os tempos de chumbo, foram surgindo várias consequências, e uma delas é a desvalorização dos recursos humanos das universidades. Passando desde múltiplas terceirizações, até o congelamento real do poder aquisitivo, os trabalhadores das universidades sempre foram um setor que muito sofreu com todos estes anos de políticas neoliberais. Traduzindo em miúdos, o salário de um professor universitário é hoje um dos mais defasados da administração pública. Interessante incoerência para um País que se almejava crescendo e se dizendo o país do futuro.
Aliado a isso, o pensamento hegemônico na sociedade de desvalorização da 'Coisa Pública', e das micro-corrupções presentes na vida cotidiana das pessoas, deu origem ao fenômeno apelidado pelo Movimento Estudantil da UFPE há alguns anos de "Professores Fantasmas". Estes seriam figuras que, mesmo pertencente ao quadro de docentes oficial dos departamentos (e pasmem, recebendo em dia seus salários), não punham os pés na Universidade, ou quando o faziam, cumpriam uma carga horária muito aquém do que seu vínculo público pede.
No curso de Medicina esta situação toma dimensões ainda maiores, pois a diferença de renda entre o Professor que vive da docência e do Médico com seu consultório particular chega a valores astronômicos. Além disso, nossa categoria não é lá sinônimo de desprendimento e abnegação em prol de valores públicos. Desta feita, em nosso curso era comum encontrarmos docentes apenas uma vez por semana nas salas, professores que chegavam as 8h e saíam as 10h das corridas de leito no hospital, e várias outras coisas bizarras. Isso com o consentimento, mesmo que velado, de todos os gestores que faziam o curso médico e a UFPE, pois todos sabiam, em maior ou menor grau do que acontecia.
A Arena Política
Discutir os microespaços onde se dão os embates políticos é bastante importante para entender porquê estas situações se perpetuam a tanto tempo.
Nos departamentos, a democracia se dá da seguinte forma: existem as reuniões de pleno do departamento, onde todos os efetivos tem direito a votar e definir os rumos daquele departamento, inclusive elegendo entre si as lideranças, que assumem as funções de chefia. Pois bem. Este que se torna chefe do depto, é o responsável legal por assinar a folha de ponto de seus pares e entregar às instâncias administrativas superiores. Aqui está o primeiro "xeque" do tabuleiro, uma vez que aquele que necessita dos votos de seus pares é o mesmo responsável por fiscalizá-los... o leitor pode imaginar no que isso pode dar.
A Arena política II
Como era de se esperar, um reflexo do que foi colocado anteriormente é a falta de professores nos espaços de docência, pesquisa e extensão do curso. E quem são os mais prejudicados com isso? Os estudantes!
E foi diante desse diagnóstico, que nós à época no DAMUC (Diretório Acadêmico de Medicina Umberto Câmara Neto) iniciamos a discutir um movimento que batesse de frente e denunciasse esta improbidade à toda comunidade acadêmica e exigisse medidas. Nasceu aí o Movimento Caça-Fantasmas. Este movimento teve inicialmente uma dupla tarefa: fomentar o debate e criar hegemonia entre os estudantes de medicina, para que todos soubessem da real situação em nosso curso, e articular com os gestores da Universidade espaços onde debateríamos este tema, espaços deliberativos que pudessem tomar alguma providência.
Desta forma, além de várias reuniões com representantes de turma, debates abertos com os estudantes, fizemos reuniões com a Coordenação do curso, com o Conselho Departamental do CCS e levamos o debate até a reitoria. Numa dessas ocasiões, o Reitor recebeu vários entes do curso médico no Salão nobre da Reitoria, e além de instigar que nomes fossem colocados sobre a mesa, prometeu que providências a partir da Reitoria seriam tomadas. Como esperávamos, pouca ou coisa alguma surgiu destas promessas.
A Arena Política III
Porém um fator foi determintante para os resultados futuros. Em 2007, com o nosso curso então com 92 anos de fundação, tem sua primeira disputa de chapas para a Coordenação do Curso que se têm notícia. À época, partiu (novamente) do movimento estudantil a tentativa de articulação de uma chapa que fosse comprometida com os processos de mudança curricular que estávamos passando, comprometida com o SUS e com a Universidade Pública. Uma reunião histórica, que contou com nós do DAMUC e professores da pediatria, saude coletiva, clinica e cirurgia, deu conformação a um grupo para a disputa da Coordenação. Desta forma, Oscar Coutinho liderou junto a Clézio Leitão e Marcelo Salazar um grupo de professores que queriam levantar a poeira daquele curso.
Mais uma vez o Movimento estudantil foi fundamental: além de articular e fomentar a chapa, decidimos as eleições. Entre os professores, pendia para o lado da candidatura do Professor Jenecy o pensamento preconceituoso que existe contra a Saúde Coletiva e a idéia de que as coisas permanecessem como estavam, com a reforma curricular pouco atingindo as disciplinas com maior poder. Desta forma, a votação entre os docentes empatou: 79x79! Entre os estudantes, mesmo com praticamente toda uma turma fazendo campanha para o outro lado (por acordos fisiológicos com a outra candidatura) o Diretório conseguiu fazer uma boa campanha e definir junto com a maioria dos estudantes uma votação expressiva na chapa de Oscar/Clézio/Salazar, dando mais de 350 votos para esta chapa, contra pouco mais de 100 para a outra.
Esta vitória e posteriormente a força deste grupo que hoje sustenta o Núcleo Pedagógico do curso, seriam fundamentais para as vitórias de hoje. Por sinal, a construção do NUPED em si, com seus informes e instrumentos de comunicação como a lista interna, deram outra dinâmica ao nosso curso.
Os resultados da Arena Política Permanente
Com isso tudo na mente e na história deste curso, recebi recentemente a notícia de que será instalado um inquérito dentro do departamento de medicina clínica com intuito de investigar quais são estes "professores-fanstasma" e definitivamente tomar providências. Bem sei que esta notícia está causando "alvoroço" pelas bandas do meu Recife, e que bom que está! Os resultados desse inquérito podem abrir espaço para pessoas com mentes renovadas e disposição para trabalhar para a universidade pública possam ser contratadas e melhorem sobremaneira o ensino dentro do curso médico da UFPE, diminuindo um pouco a defasagem de docentes que nosso curso possui.
Bem sei que essa disputa ainda reserva muitas surpresas, mas é um fato político que por si só já deve ser tratado como uma vitória, pois está mexendo em estruturas nunca antes questionadas no seio da universidade. E ressalte-se aqui o papel fundamental dos atores politicos neste processo, como o DAMUC, Oscar, Marcelo, Clézio, Ivanize, Márcia, Clezilte, Rodrigo Cariri, Luiz gonzaga, Miguel Arcanjo, Adelmar e tantos outros professores e professoras que a distancia de Recife não me permite lembrar agora. Este é um exemplo de luta pela universidade pública, um exemplo de responsabilidade com o que é de todos, e é desse tipo de história que é de se orgulhar de ter feito parte.
É lógico que este fato que estou tratando aqui como uma vitória não faz nem cócegas nos grandes problemas das universidades públicas, como seu subfinanciamento e políticas públicas que a atacam cotidianamente. Apesar de ter clareza disso, dou importância a esta vitória do micro-espaço porque questiona as estruturas, mete o dedo na ferida do status quo, e constrói um outro tipo de consciência entre os que fazem o curso, de que nada é imutável, que nada é impossível de mudar, como diria Brecht.
Parabéns aos que hoje fazem o Curso Médico da UFPE, e tenham certeza que esse profissional formado por esta casa, estará honrando este nome e a história do que construímos conjuntamente durante estes anos, em defesa do SUS, da Universidade Pública e em busca de uma sociedade humana o suficiente que destrua o Capitalismo.
Abaixo, o poema de Mário Lago, que dá um ótimo pano de fundo ao que foi escrito:
Canção do não tempo de lua
(Mário Lago)
Amada não me censure, se sou de pouco falar
Nem se esse pouco que falo não faz você suspirar
É tempo de vida feia, de se morrer ou matar
De sonho cortado ao meio, de voz sem poder gritar
De pão que pra nós não chega, de noite sem se acabar
Por isso não me censure, se sou de pouco falar
Criança é bonito? É
Mulher é bonito? É
A lua é bonito? É
A rosa é bonito? É
Mas criança chega a homem se a bomba quiser
A mulher só tem seu homem se a bomba quiser
Homem sonha e faz seu sonho se a bomba quiser
Não é tempo de ver lua nem tirar rosa do pé
Amada minha não chore se nunca falo de amor
Nem se meu beijo é salgado, que é beijo chorado em dor
É tempo de vida triste, de olhar o seu com pavor
De mão pro último gesto, de olhar pra última flor
De verde que era esperança trazer desgraça na cor
Por isso amada não chore se nunca falo de amor
Criança é bonito? É
Mulher é bonito? É
A Lua é bonito? É
A rosa é bonito? É
Mas criança chega a homem se a bomba quiser
A mulher só tem seu homem se a bomba quiser
Homem sonha e faz seu sonho se a bomba quiser
Não é tempo de ver lua nem tirar rosa do pé
Amada não vá embora se eu trouxe desilusão
Se aumento sua tristeza, tão triste a minha canção
É tempo de fazer tempo, de pegar tempo na mão
De gente vindo no tempo em passeata ou procissão
No mesmo passo de sonho pra bomba dizendo ?não!?
Amada não vá embora, mudou a minha canção!
Criança é bonito? É
Mulher é bonito? É
A lua é bonito? É
A rosa é bonito? É
Pois criança vai ser homem porque a gente quer
A mulher vai ter seu homem porque a gente quer
Homem vai fazer seu sonho porque a gente quer
Vai ser tempo de ver lua e tirar rosa do pé
3 comentários:
Gaúcho!
belo resgate histórico!
vai nos instrumentalizar muito na nova gestão do DAMUC e tenhas certeza que estaremos mais uma vez presente nesse momento de efervescência política do curso!
saudade de tu.
cheiro
Meu querido Gaucho, você não sabe o quanto é importante este resgate que você fez.Tua análise das arenas políticas é bem pertinente, estamos juntos na luta por uma Universidade Pública de qualidade e socialmente comprometida.
Abraço do seu amigo e fã, Oscar.
eita orgulho que me dá quando lembro de todo esse processo..e das eliçoes....vixe... foi muita felicidade... e mt suor tb!
bjsss,
saudades de vc
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