Voltando a movimentar o Caldo da Galinha
Prepararei nestes dias algumas postagens, inspiradas em minha viagem pra Buenos Aires por ocasião de minha lua de mel com Natália.
Por hora, postarei aqui um pontapé inicial., pois foram muitas as descobertas, vivências e experiências.
A Galinha Cabidela
Política, Medicina, Saúde e Movimento, engrossando o Caldo Vermelho da Galinha!
20 October, 2011
19 June, 2011
28 May, 2011
Cooperativa de Médicos de Família - Tentando sair do País das maravilhas

Este texto foi escrito após iniciado um debate na lista virtual da Sociedade Brasileira de Medicina de Familia e Comunidade (SBMFC) onde um colega propôs a criação de uma Cooperativa de Médicos de Família, onde cada paciente pagaria 100R$ por um plano familiar. Esta iniciativa se valeria das "áreas que o Poder público não cobre e nem vai cobrir", e serviria para "pressionar" as grandes operadoras de Saúde a olharem para o modelo da Atenção primária com mais carinho....
Ps. a brincadeira com o País das Maravilhas foi porque o autor diz que não podemos "viver no país das maravilhas e achar que as operadoras vão assistir estas pessoas".
Cooperativa de Médicos de Família - Tentando sair do País das maravilhas
"Há cento e trinta anos, depois de visitar o país das Maravilhas,
Alice entrou num espelho para descobrir o mundo ao avesso.
Se Alice renascesse em nossos dias, não precisaria atravessar
nenhum espelho: bastaria que chegasse à janela."
Eduardo Galeano
De Pernas pro Ar: A escola do mundo ao avesso (1999)
Pra começo de conversa - Olhar para a Foto ou assistir ao Filme?
Trabalhar no dia a dia dos serviços públicos de saúde no Brasil hoje tem sido uma experiência difícil para a grande maioria dos trabalhadores e trabalhadoras espalhados pelos quatro cantos do País. Falta de estrutura, precarização dos vínculos trabalhistas, baixa remuneração, pouco acesso à medicamentos, baixa resolutividade, falta de leitos, carência de profissionais, redes de referência inexistentes ou insuficientes, profissionais desestimulados, etc. Uma verdadeira sopa da qual tomamos uma colher todos os dias. Esta é a foto de boa parte do SUS hoje. Na verdade uma das fotos. Mais na verdade ainda, esta é a foto que alguns setores da Sociedade teimam em totalizar como verdade. Estes mesmos trabalhadores sabem que são várias as Fotos que compõem o Álbum do SUS. E muitas delas são boas fotos, que não vou detalhar aqui pois o objetivo não é detalhar o que tem de bom e ruim no SUS.
Mas considerando esta, a Foto ruim, ela não passa de uma foto. Nela não se vê movimento, nem mesmo o piscar dos olhos.
Nesta foto do SUS de hoje, não se consegue enxergar porquê o SUS está do jeito que está. Nesta foto não aparecem os Deputados que votaram contra o SUS na constituinte de 88; nela não aparecem os Deputados que barraram os aumentos do financiamento para o SUS; nela não aparecem os corruptos que desviam as verbas da Saúde; nela não aparecem os Presidentes que utilizaram a DRU para tirar farinha do pouco pirão da Saúde; nela não aparecem os ataques que o SUS sofre cotidianamente e por todos os lados, com subfinanciamento, desfinanciamento, má gestão, corrupção, lobby das indústrias, etc.
Pra se ter uma real dimensão das coisas, é preciso assistir a um filme das Políticas Sociais no Brasil, sua origem, seus avanços, seus entraves... Uma foto, serve a apenas um propósito: o oportunismo.
Oportunismo
(oportuno + -ismo)
s. m.
1. Sistema de transigir com as circunstâncias, de agir conforme elas.
2. Tendência ou aptidão para aproveitar as oportunidades ou as circunstâncias, normalmente sem preocupações éticas.
Na proposta que foi colocada a público, se parte do pressuposto que uma parte (20%) da população de determinada cidade não possui cobertura da Estratégia de Saúde da Família, e daí se parte pro raciocínio mais lógico de que esta parcela da sociedade seria um "Mercado em potencial" para uma Cooperativa de Médicos de Família.
Isto é: está lançada a oportunidade, como diria o próprio autor, para o Empreendedorismo Social!
Lamentável ver como a lógica de mercado molda as pessoas: ao invés de se pensar que o poder público está desassistindo uma parcela da População, se pensa em como ganhar dinheiro com isso. Está dado o oportunismo.
Conversas velhas em Prosas novas
- Conversa velha 1
Será que estaria sendo eu duro demais com a proposta? Afinal foi dito também que a entidade não teria fins lucrativos, que seria filantrópica, etc. Pra quem olha minimamente pra fora da janela, e vê a realidade, ouvir uma conversa dessas é no mínimo motivo pra um sorriso no rosto.
Este é o mesmo papo das Organizações Sociais que hoje são pauta do STF pela sua inconstitucionalidade, e é o papo dos maiores "drenos" dos recursos da Saúde do SUS. A rede filantrópica parasita o sistema, cresce e se fortalece, enquanto a rede própria do SUS vai decaindo aos poucos. Pernambuco é um retrato fiel disso no atual momento, mas nada que seja diferente do restante do País.
- Conversa velha 2
Além disso, esta iniciativa de "Clínicas Populares" já está espalhada no País inteiro. Vários profissionais "caridosos e preocupados com os mais necessitados" fazem atendimento a preços populares, pra darem aos pacientes a ilusão de um atendimento barato. Ilusão pois todo o resto que gira em torno do procedimento médico "foge da responsabilidade" dos "Médicos éticos e altruístas", como exames, referências, medicamentos, etc. E onde que estes pacientes vão buscar amparo quando se vêem sem dinheiro pra comprar o medicamento? Na rede do SUS!
Desse jeito fica fácil ganhar dinheiro: pra se justificar se aproveita das falhas do sistema, e quando é conveniente diz pro paciente procurar o SUS porque é seu direito. Saúde enquanto dever o Estado não é lei? Ao que parece, o oportunismo tem um olho que enxerga a lei como Dura Lex sed Lex (a lei é dura, mas é a lei- pra receber o medicamento), e outro que enxerga Dura Lex sed latex (a lei é dura, mas é flexível- pra manter as áreas desassistidas).
O Duelo entre Davi e Golias - a missão de retirar Mercado das grandes Operadoras de Saúde
Somente tendo um total desconhecimento do perfil de mercado, de interesses do consumidor, da dinâmica do próprio capitalismo e realmente vivendo no País de Alice pra se pensar que uma cooperativa de médicos de família que cobra 100R$ por pessoa iria disputar mercado com a Amil, Unimed, etc.
Caro colega, hoje o senso comum e a construção midiática estão longe de favorecer a escolha dos usuários por um médico de família, na verdade muito longe disso. Cada um quer um especialista diferente, e isto é o que é louvado no mercado da saúde. As pessoas aderem a estes planos de saúde para poderem, mesmo que de uma forma completamente precária, ter acesso a estes especialistas em algum momento, e marcar sua consultas diretamente com eles.
Todos sabemos que este sistema é burro do ponto de vista da custo-efetividade, porém é o que deseja quem consome. O Mercado responde ao ronco no estômago do consumidor, isto é, oferece aquilo que se quer agora, senão sai perdendo. E somente uma política de Estado é que conseguiria reverter uma cultura tão arraigada, mas amparada no Estado e em políticas públicas. Entrar no mercado tentando reverter uma "cultura de mercado" é assinar sua carta de suicídio.
Tentando sair do espelho de Alice
Pra finalizar, vamos deixar claro de uma vez por todas: entidades sem fins lucrativos não podem ter giro de lucro no seu caixa, mas podem pagar quanto quiserem aos seus diretores/associados. Então, as palavras "caridade" e "filantropia" podem ser excluídas do dicionário da vida real de quem gerencia estas entidades, pois é o interesse privado, e nunca o público, que norteia estes trabalhos.
Na verdade, é o interesse privado que tenta invadir o que é público, e fazer dele a sua "galinha dos ovos de ouro".
Pra ilustrar, leiam um pouco sobre este filme: Quanto vale, ou é por quilo?http://pt.wikipedia.org/wiki/Quanto_Vale_ou_%C3%89_por_Quilo%3F
Pra finalizar mesmo, sei que fui duro neste e-mail, mas já estava ficando sufocado vendo mais uma tentativa de Parasitismo no Estado Brasileiro surgir e ninguém questionar. Deixar isso passar seria uma afronta ao que defendo de Sistema de Saúde, de Estado Social e inclusive do papel aglutinador e tensionador que a Estratégia de Saúde da Família permite, ao desvelar as reais iniquidades de Saúde e nos colocar em movimento para combatê-las.
Concluindo deixo mais um trecho do livro de Galeano que abriu este texto
"(...) Em sua versão hebraica, a palavra enfermo significa
"sem projeto" e esta é a mais grave enfermidade entre as
muitas pestes deste tempo. Mas alguém, sabe-se lá quem,
andou escrevendo num muro da cidade de Bogotá:
Deixemos o pessimismo para tempos melhores.(..
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